
No geral estou gostando do curso no Goethe. Como disse, é meio corrido, mas temos apenas um mês de aula, então não tem como ser muito diferente. Uma das coisas realmente boas é a quantidade de eventos paralelos que eles oferecem. Há passeios pela cidade acompanhados de um professor que faz comentários sobre os lugares, palestras sobre temas diversos, programas esses gratuitos. Há também visitas guiadas a museus, noites no cinema e no teatro -- em geral, com valores reduzidos para a entrada. Semana passada, por exemplo, assisti a uma palestra sobre a República de Weimar com um historiador. Ponto para mim porque a palestra era em alemão e eu entendi boa parte.
Os programas também acontecem nos finais de semana, então nesse sábado fiz um passeio com uma professora pelas galerias de arte do Scheunenviertel. Em geral tenho uma postura independente para visitar locais de exibição de arte -- vou vendo no meu ritmo e, quando algo me chama atenção, paro para observar melhor. Por isso, não quis acompanhar as visitas guiadas a museus -- até porque já conheço boa parte deles e a maioria oferece aqueles guias de áudio com informaçoes sobre as obras principais. Porém, visitar galerias de arte sempre é mais complicado. Em geral elas são espaços pequenos, muitas vezes meio escondidos, que até intimidam um pouco os visitantes aventureiros como eu. Além disso, é mais difícil para quem não é local ou connaisseur pinçar as coisas boas no meio de uma grande oferta. Por isso resolvi aproveitar esse passeio -- até porque foi sábado à tarde, aquele período em que a gente não costuma fazer nada muito produtivo.
O Scheuneviertel é uma parte do Mitte que também ficava em Berlim Oriental e vive, atualmente, um verdadeiro boom. Inúmeros cafés, restaurantes, bares, lojinhas de marcas famosas ou de designers locais, livrarias, salões de beleza, lojas de comida, de bebida, de chocolate -- enfim, de tudo um pouco -- abriram por ali. Além, claro, das galerias de arte. É onde fica o Goethe Institut também -- ou seja, não é muito longe daqui. É um dos meus lugares preferidos da cidade e, mesmo antes de as aulas começarem, muitas vezes ia para lá procurar um lugar para comer ou para tomar um café.
Antes da Segunda Guerra era uma área ocupada por muitos judeus -- na Oranienburgerstraße, por exemplo, fica a Neue Synagoge, que por pouco não foi queimada durante a "Noite dos Cristais" e que hoje é museu e centro cultural. Também tinha muitas fábricas, o que tem sido bem aproveitado por galerias. Não foi uma área severamente destruída durante a guerra, mas, durante os anos comunistas, pouca reconstrução foi feita -- a Tacheles, centro cultural de que já falei, fica nessa área também. Por isso, logo após a reunificação, os aluguéis baratos atraíram galerias e artistas independentes; hoje, obviamente, o metro quadrado já está bem caro. Consta que hoje existam mais de cem galerias na área, que nem é muito grande. Em Berlim toda são mais de seiscentas, o que definitivamente torna a cidade uma meca da arte contemporânea.
Na verdade, muitas das galerias do Scheunenviertel, começaram de forma bem independente e autônoma e, apenas depois de muitos anos de trabalho, ganharam reconhecimento. De acordo com minha professora, é um movimento que tem pouco mais de quinze anos -- o que é realmente muito novo. O ponto crucial foi a primeira Documenta de Kassel (uma mostra de arte que acontece a cada cinco anos em Kassel) pós-reunificação, no começo da década de 90, quando vários galeristas foram até lá levar o trabalho de artistas locais novos e convidaram críticos ocidentais para conhecer suas galerias. Depois que o movimento se estabeleceu, muitos galeristas de Berlim Ocidental se mudaram ou abriram filiais nessa área. Alguns poucos galeristas são oriundos de Berlim Oriental e, por isso, são vistos como pioneiros também (visitamos uma de uma galerista da época comunista, mas eu perdi o portfólio, por isso não me lembro do nome).
Algumas galerias na região realmente ficam meio escondidas. Muitas ficam dentro de "höfe", aqueles pátios internos com jardins, tão comuns nos prédios de antigamente. Vários desses höfe tinham residências na parte da frente, voltadas para a rua e, na parte de trás, pequenas fábricas e manufaturas. Muitos foram recuperadas depois da reunificação e têm uma mistura interessante de residências particulares, escritórios, galerias e até restaurantes.
A visita guiada valeu à pena porque a professora que nos acompanhou era muito bem informada -- esse povo, quando quer fazer uma coisa bem feita, sabe muito bem como. Ela contava a história das galerias, qual o background dos galeristas, em que tipo de arte ou nicho cultural ela era especializada -- em suma, porque valia a pena visitá-la. Também falava um pouco sobre os artistas em exposição.
A galeria Alexander Ochs, por exemplo, é especializada em arte oriental, principalmente a chinesa -- eles têm outra galeria em Pequim. Atualmente tem uma exposição com um artista chamado Yang Shaobin, que tem telas bem fortes, e que estará em exibição no MASP de 13 de agosto a 18 de outubro (fica a dica!).
A galeria Eigen+Art foi chamada pela professora como a "galeria número 0" do Scheunenviertel. São originários de Leipzig -- onde ainda mantêm uma galeria -- e foram um dos primeiros a se instalar no bairro. Estavam com uma exposição de um artista chamado Maix Mayer, que trabalha com fotos e vídeos sobre intervenção urbana e a vida na cidade.
A galeria Barbara Thumm (a galerista é também artista, com formação na Inglaterra) trazia obras de Martin Dammann, na verdade fotografias escolhidas de coleções particulares de ex-soldados alemães (vários inclusive nazistas), em geral vestidos de mulher -- brincadeiras para distrair o front -- trazendo um lado diferente dos sisudos militares que os filmes normalmente não mostram.
A galeria Wolfram Völcker estava com xilogravuras lindas do Georg Baselitz. A Zwinger Galerie trazia trabalhos de um(a) artista que ninguém nunca viu, chamado(a) Susi Pop. Minha professora desconfia que seja o próprio galerista. Os trabalhos atuais são na verdade reproduções em rosa (cor preferida do(a) Susi) de obras que foram roubadas, ou foram criadas para atender a encomendas particulares e atualmente estão expostas ao público em museus; ou seja, questionamentos sobre os limites públicos/privados das obras de arte.
Há também coleções privadas, como a Sammlung Hoffmann, uma família de colecionadores que veio da Alemanha Ocidental e recuperou um desses höfe na área -- onde fica também a galeria Alexander Ochs. Eles têm uma casa no local e a abrem para que as pessoas possam ver sua coleção -- é necessário ligar e marcar horário.
Pátio que dá acesso à Galerie Barbara Thumm. Notem a parede atrás bem antiga, provavelmente original. Na frente, nossa guia.
Trabalho do artista Martin Dammann, exposto na Galerie Barbara Thumm
Trabalho do artista chinêsYang Shaobin, na Galeria Alexander Ochs
Parte do hof recuperado pela família Hoffmann, com inscrição feita por artista (adjetivos opostos em alemão)
O mesmo pátio
Outro pátio que faz parte do mesmo complexo da família Hoffmann. Lá em cima, outra galeria de arte
Gravura de Georg Baselitz exposta na Galeria Wolfram Völcker
Pafleto da mostra do(a) artista Susi Pop na Zwinger Galerie
No alto: entrada da Galeria Eigen+Art





Que delícia esses passeios culturais. Procure por um artista da alemanha oriental chamado Max Uli. Acho que é assim que se escreve. A obra dele é mto forte e bela.
ResponderExcluirBj saudoso. Ando sentindo sua falta no trabalho, embora saiba que dessa saudade você não sofra, com razão.