sexta-feira, 29 de maio de 2009

Pro-Ethik e Pro-Reli


Logo quando cheguei em Berlim, havia várias campanhas espalhadas pela cidade, a respeito de um plebiscito que ocorreu ainda no mês de abril. Os berlinenses (a consulta aplicava-se apenas à região de Berlim) deviam dizer se concordavam com a manutenção das aulas de ética nas escolas, ou se queriam que os estudantes tivessem a possibilidade de escolher entre tais classes e aulas de religião. As posições, em suma, foram resumidas em dois grupos: "Pro-Ethik" e "Pro-Reli".


Pelo que eu pude apurar, há muito tempo atrás havia aulas de ensino religioso nas escolas (obviamente só do lado ocidental), mas elas foram substituídas por aulas de ética -- daí a polêmica. Recentemente, alguns grupos começaram a achar que os estudantes deviam poder escolher entre uma e outra. Na realidade, o plebiscito foi realizado apenas para conhecer a opinião dos cidadãos, já que quem vai decidir mesmo é a Câmara local. Não deixa de ser interessante, de qualquer forma, que eles tenham consultado a população antes de decidir.


Na realidade, não entendi muito bem a discussão. Gente, será que eu sou meio burro? Para mim, ética é ética, religião é religião, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Até se pode discutir religião em uma aula de ética, mas ela não se restringe (ou não deve se restringir) a isso. Em alguns cursos superiores, por exemplo, cadeiras de ética são obrigatórias. Mesmo quando não estamos falando de "ética profissional", na Universidade a disciplina de Ética é, em geral, oferecida pelos departamentos de Filosofia, enquanto religião tem mais a ver com Teologia. De qualquer forma, acho muito interessante que alunos já tenham aulas de ética na escola secundária, principalmente em um país que já teve (e ainda tem) problemas com o nazismo. Portanto, não entendo porque os alunos devam ter o direito de escolher entre ética e religião. Há a possibilidade de você escolher se quer ou não estudar matemática na escola? Então, acho que funciona mais ou menos da mesma forma.


Bem, daí surge uma outra discussão: e porque não se pode ter acesso a ambas as disciplinas na escola? Alguns partidários da "Pro-Reli" estavam usando esse argumento. Acho que o cartaz pregado numa parede do bairro de Kreuzberg (foto acima, de minha autoria) é bem esclarecedor a respeito. Com desenhos e um texto simples, ele questiona: "Pro-Reli? Por que não? Porém, não aqui (na escola), mas na igreja, na mesquita, na sinagoga. Por isso, em 26 de abril, marque 'não'". Pois é, é exatamente o que eu penso. O estado não é laico, ora bolas? Porque escolas públicas ou particulares sem orientação religiosa têm que gastar dinheiro para oferecer aulas de religião? Não estou falando, obviamente, daquelas escolas religiosas, onde, todos sabem, as aulas de ensino religioso vêm no pacote. Quando era adolescente, minha mãe, católica, me inscreveu em aulas de catequese e crisma na igreja do nosso bairro, onde, aos sábados, tive formação a respeito da doutrina católica. O mesmo acontece com outras religiões, que também oferecem "aulas" para jovens a respeito da fé que professam. É nesses lugares que as aulas de religião devem acontecer, de acordo com a fé e o interesse dos pais. Nas escolas, não consigo entender o sentido das aulas de religião.


Adendo: esqueci de comentar, mas a maioria votou no plebiscito pela manutenção das aulas de ética... ainda bem.

Um comentário:

  1. Não espalha, mas em agosto vamos publicar um estudo sobre o tema desse seu último parágrafo. A situação no Brasil é muito mais caótica (ex. o RJ tem uma lei da era Garotinho que diz explicitamente q as aulas de religião nas escolas públicas deverão seguir a religião cristã). Acho que vai cair como uma bomba, wait and see ;)

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