segunda-feira, 13 de julho de 2009

İstambul tem pingo no "i"


Pois é, crian
ças amadas, estou desde quinta-feira em İstambul. O título do texto vem do fato de que, em turco, há "i" com pingo e "ı" sem pingo -- obviamente com sons distintos. E o de İstambul tem pingo, o que significa que, mesmo quando a letra é maiúscula, deve vir com o sinal. Outra curiosidade ortográfica do turco é que tem "s" com cedilha: ş.

Já bati muita perna na cidade e gostei muito do que vi. Claro que a língua é uma grande barreira. Pouca gente fala inglês -- talvez na mesma proporção que no Brasil, não sei. Senti-me às vezes como aqueles gringos meio bobos que a gente vê pelo Brasil, falando com sinais, ou forçando um inglês quando a outra pessoa claramente não está entendendo patavinas. Mais uma vez, só estando no lugar do "outro" para entendê-lo. Mas a gente dá um jeito, aponta um endereço no papel, enfim, uma hora resolve.

Há o lado "histórico", onde estou, conhecido como Sultahnamet (na verdade, esse é o nome de apenas um dos bairros, mas como é o mais central deles, acaba sendo usado genericamente). Aqui ficam a Mesquita Azul e a famosa Aya Sofya (ou Santa Sofia), ambas gigantescas e impressionantes. À noite, iluminadas, são de arrepiar. O Palácio Topkapı, onde os sultões viveram até o século XIX, me lembrou um pouco a Alhambra em Granada, ou o Alcazar de Sevilha. Fui ao Grande Bazar esperando um misto de Feira do Guará com Feira dos Importados, mas não é que é bastante limpo e organizado, considerando-se que estamos em Istambul? (talvez por ser o mais turístico dos bazares daqui). Tem, claro, um pouco de camelô por lá, com várias banquinhas vendendo jeans e tênis. Mas há muitas de tapetes, de lanternas coloridas, e de coisas de prata, ouro, e outros balangandãs que a turca adora (e minha amiga Carol também, beijo linda!).

Um braço do Bósforo (conhecido como Golden Horn ou Haliç) separa o lado europeu de Istambul em dois. Do outro lado, há ainda algumas coisas antigas, mas começa a cidade mais moderna. A İstiklal Caddesi é a rua mais movimentada, cheia de lojas. Andar sábado à noite por lá foi quase passar por um Carnaval de rua no Brasil. Ao redor dela, várias ruazinhas com dezenas de bares e restaurantes, todos apinhados no final de semana. Há muita coisa trash, mas também muitos restaurantes legais. Algumas baladinhas também ficam por ali.

Aliás, turcas ricas mesmo eu vi hoje em Levent, o distrito financeiro da cidade. É longe, mas o metrô chega até lá, então fui ver como era. Os prédios altos dão um certo ar Brigadeiro Faria Lima ao lugar. Mas entrei em um shopping com várias dessas marcas de praxe de butiques ocidentais, e aí sim vi o lado "bem nascido" de Istambul, mais ou menos padronizado como em qualquer cidade grande hoje em dia.

O lado asiático não tem muitas atrações -- pelo menos os guias não mencionam nada, e mesmo os mapas distribuídos nos quiosques de informação turística não incluem o outro lado. Há duas pontes atualmente cruzando o Estreito de Bósforo, e o projeto de construir um túnel. Mas a maioria das pessoas atravessa mesmo de balsa, como eu fiz, só para falar que tinha pisado na Ásia. Cheguei lá, dei uma voltinha, tomei um sorvete e voltei.

O trânsito na cidade é caótico, como jamais havia visto. O sinal está vermelho, mas os carros continuam passando. Os pedestres, talvez por vingança, não esperam o homenzinho verde aparecer e saem ziguezagueando pelo meio dos carros, lembrando aquele jogo Freeway do Atari. Estava quase certo que ia presenciar um atropelamento por aqui. Vale dar ré no meio da rua, voltar pela contramão, tudo pode. Nem preciso dizer que o barulho das buzinas é som ambiente. Há também uma certa deficiência no sistema de transporte. Embora haja conexão entre os sistemas (bonde, funicular, metrô etc), cada vez é necessário comprar um novo bilhete -- que nem é bilhete, é uma ficha metálica que você introduz nas catracas, lembrando aquele sistema de fichas para os orelhões de antigamente. Mas acho que tudo isso faz parte do "charme turco". Senão vira Europa pura e simplesmente.

Nesse exato momento, por exemplo, enquanto escrevo, ouço os cânticos muçulmanos vindos da Mesquita Azul (a que fica mais próxima do hotel). Mas eles ecoam por toda a cidade, várias vezes ao dia, já que em todo canto que você vai nessa cidade tem uma mesquita. Acho isso muito louco. Para a gente que está de férias parece lindo, interessante, exótico (até gravei com minha câmera). Mas imagine ouvir isso todos os dias? (inclusive tem um cântico no final da madrugada, nem sei direito, lá pelas 5h00). Desde que a Turquia virou uma República, lá na década de 20, Estado e religião separaram-se oficialmente, mas parece que isso aconteceu mais em tese do que na prática. Se vários cidadãos nessa cidade não seguem a religião muçulmana (há muitos cristãos ortodoxos), por que têm que ouvir esses cânticos que são propagados pela cidade em alto-falantes? Eles não deveriam se limitar ao recinto das mesquitas? Não consigo deixar de comparar com aquelas igrejas no Brasil que ensurdecem a todos com seu volume exagerado.

Mas discutir religião é campo minado, então deixa para lá. O que vale é a imagem que ficou, de uma cidade ao mesmo tempo oriental e ocidental, antiga e moderna. De fato, o meio caminho entre a Ásia e a Europa.

Curiosidades:
- Todo vaso sanitário por aqui tem um caninho que fica na parte de trás, por dentro, e funciona como as nossas duchas higiênicas. Mas deve ser uma coisa que "vem de fábrica" mesmo, porque até os de bares e boates tinham o dispositivo. Só fica sujinho quem quer.

- Há, claro, pedintes nas ruas, mas só vi mulheres. Será que há algum dispositivo no Alcorão que proíbe homens de pedir dinheiro?

- Não adianta: kebab não desce, nem aqui na terra deles. Mas o resto da culinária turca é ótimo. Muito cordeiro, claro. Meus preferidos foram um prato de almôndegas turcas com molho de iogurte azedo e purê de berinjela e um de ravióli de cordeiro e figos secos com molho pesto.


No topo: Aya Sofya à noite. Acima: lâmpadas coloridas no Grande Bazar.