quinta-feira, 30 de abril de 2009

Primeiro de maio

Diz que amanhã (dia 1. de maio) aqui em Berlim a cidade pega fogo. Neguinho vai para as ruas protestar e enfrenta a polícia, con sangre en las calles. E eu estou doido para ver uma manifestação dessas. Vou ver se dou uma volta amanhã com minha bicicleta e tiro umas fotos.

Vou adaptar a música da Ladyhawke e cantar: "my heart is yearning and Berlin is burning..."

quarta-feira, 29 de abril de 2009

A doida e a ursa Katjuscha

Logo quando eu cheguei um dos principais destaques na mídia berlinense* foi uma tia louca que pulou na jaula dos ursos polares do zoológico daqui e levou uma mordida de uma ursa. Isso se passou na sexta-feira santa, ou seja, nem estava fazendo tanto calor ainda. Mas a tia pulou a grade que separava o público e os pobres ursos e -- tchibum! -- deu um mergulho na água (que devia estar um limpeza só, imaginem o que tinha de caca de urso ali). Disse uma testemunha ao jornal que ela ainda se voltou para as pessoas, que deviam estar atônitas vendo aquilo tudo, e disse: "não se preocupem comigo!"

Primeiro ela nadou um pouco, depois foi rumo a um dos ursos -- que era, na verdade, uma ursa chamada Katjuscha. De certo, ela acha os ursos fofinhos e queria apertá-los, como aquela personagem Felícia do desenho animado. Quando ela chegou perto da Katjuscha, ainda estendeu a mão em sua direção, mas levou uma bela mordida da ursa no ombro. Só achei a seguinte foto a respeito na internet:



Pois é, a foto foi tirada por um outro visitante e mostra o exato momento da mordida, e a cara de dor da tia. Depois ela saiu nadando de volta rumo à grade e, graças a Deus, conseguiram puxá-la logo de novo para cima. Testemunhas disseram que ela ainda saiu dando risada da jaula.

Depois foram pesquisar a vida da mulher, descobriram que ela é separada, tem uma filha e tal. Mora num subúrbio até bonito aqui de Berlim, Köpenick, com um centro histórico antigo (pelo menos o Lonely Planet diz isso, eu nunca fui lá). Eu, na verdade, só me perguntei: o que será que essa louca varrida bebeu naquele dia? Cachaça Garimpeira com vinho de garrafão, só pode.

* Até onde eu sei, a mídia berlinense é meio chulé, já que os principais jornais do país, o Frankfurter Allgemeine e o Südeutsche Zeitung são publicados, respectivamente, em Frankfurt e Munique. A maioria do que eu vi até hoje tem jeitão de tablóide, mas, parece, eles estão fazendo uns jornais mais sérios ultimamente em Berlim. Qualquer comparação com os jornais do Brasil e da nossa capital por conta de vocês.

Cabecinha de vento

Quem me conhece sabe que eu sou super distraído. Meu poder de concentração é meio fraco. Por isso, era de se esperar que, mais dia, menos dia, eu iria trancar a porta do apartamento com a chave dentro.

Vamos explicar: aqui na Europa, a maçaneta das portas das casas só gira do lado de dentro. Do lado de fora, elas são fixas. Por um lado, isso significa dizer que, bateu a porta, ela já está fechada por fora, não precisa nem girar a chave. Por outro, quer dizer também que você não pode só deixar a porta encostada enquanto vai ali jogar o lixo fora: se não levar a chave com você, dançou.

Eu achava difícil fechar a porta com a chave por dentro porque deixo a chave na fechadura e, assim, sempre que vou sair, lembro dela ali. Pois outro dia aconteceu. Vieram uns búlgaros aqui fazer uma faxina em casa. Aliás, depois tenho que escrever a respeito, mas já adianto: que faxina tabajara! (saudades da Maria, manda um beijo para ela, Carol). Mas, enfim, foi indicação da proprietária. Quando fui pagar, o cara não tinha troco, e eu propus que nós descêssemos juntos para tentar trocar a nota no supermercado que tem aqui em baixo. Fomos saindo do apartamento conversando, eu saí primeiro, ele veio por depois, passando um último esfregão no chão. Sei que, quando vi, ele já tinha saído e batido a porta. "Você está com as chaves?", ele ainda perguntou, mas era tarde demais.

Lá fui eu incomodar a pobre da Julia de novo. Ela até tinha uma chave extra, mas o problema foi que, com a minha chave do outro lado da fechadura, a chave dela não abria a porta. Tive que ligar para um chaveiro (Schlüsseldienst) vir abrir a porta. Ocorre que a brincadeira saiu quase € 100,00. É isso mesmo, trezentos reais para abrir uma porta. Mas o que eu podia fazer? Tive que pagar essa quantia extorsiva, ou então não entrava mais em casa. O mais "divertido" de tudo foi ter que ouvir o cara pedir para eu esperar no hall do elevador enquanto ele fazia os mequetrefes dele. Sim, eu não pude observá-lo em ação. Ele notou, claro, que eu não era alemão (apesar do meu sotaque da Westfália quase perfeito); de certo, porém, ele achou que eu tivesse cara de ladrão. Contei para a Julia esse detalhe e ela morreu de rir.

Depois disso, a Julia me ensinou a deixar a chave dependurada na maçaneta da porta. Dessa forma, sempre que eu for abri-la, inevitavelmente vou pegar na chave. E se, mesmo assim, eu esquecê-la do lado de dentro, será possível abrir a porta com a chave da Julia, já que a minha não estará enfiada na fechadura.

domingo, 26 de abril de 2009

Friedrichshain





Friedrichshain é um bairro (ou Bezirk, como eles dizem aqui), que ficava no coração de Berlim Oriental. É ainda uma região central -- abordada por exemplo no meu guia Lonely Planet e mesmo no Wallpaper --, que começa bem aqui do lado do meu apartamento, mas se espalha rumo ao leste. É cortada bem ao meio pela Karl-Marx-Allee, de que eu já falei no blog em outro texto.

Por ser um bairro bem típico da Berlim comunista e ainda manter um ar que lembra muito aquela época, não tem muitas atrações turísticas. Exceções são talvez a própria Karl-Marx-Allee -- que, como eu disse, está experimentando um pequeno revival -- e a East Side Gallery, um pedaço razoável do Muro de Berlim (cerca de 1300 metros) que margeia o rio Spree, mantido como uma memória viva daqueles dias. Após a reunificação, artistas internacionais foram convidados para cobrir o cinzento muro com seus trabalhos. Hoje em dia essas "pinturas" estão bem pichadas, riscadas e castigadas pelo tempo, é verdade, mas ainda representam o espírito daquele período da reunificação. De acordo com o Lonely Planet, estão programando um retoque dos trabalhos. É lá também que fica a Berghain/Panorama, boate instalada numa antiga usina de energia e de que eu já falei aqui.

De qualquer forma, os aluguéis ainda baratos, o fato de ser cortado pela linha U5 do U-Bahn e pelo S-Bahn, e sua localização ainda central atraem estudantes, artistas e gente jovem em geral.

Os guias também fazem menção a uma área de bares e restaurantes ao redor da Simon-Dach-Straße. Ontem à noite, com o pretexto de sair para jantar, aproveitei para conhecer a área. O objetivo era comer no Schneeweiss (algo como branco-neve), um restaurante de comida austríaca mencionado no guia da Wallpaper e do Lonely Planet; porém, como eu me enrolei muito para sair, acabei pegando a cozinha fechada. Mas achei o lugar bem bonito e devo voltar qualquer dia desses.

O que me surpreendeu mesmo foi a agitação da área, num local bem fora do circuito propriamente turístico. Realmente, há dezenas de bares e restaurantes e muita gente na rua. OK, a região era um reduto punk até outro dia -- você ainda vê muitos deles por lá --, e vários desses restaurantes e bares são espelunquinhas. Mas há opções, sim, para gostos um pouco mais refinados, como o Astro Bar, o Stereo 33 e o próprio Schneeweiss. E, afinal, os punks dão um ar descontraído e decadente que combinam bem com Berlim.

Acima: fotos da East Side Gallery. Na última foto, está escrito: "A política é a continuação da guerra com outros meios".

The Woman's Voice


Gente, no Brasil ele anda sumido. Nunca mais tinha ouvido falar dele. Pois olhem por onde Edson Cordeiro anda:


Ele agora só faz turnê européia! Só achei meio cafona o nome do show. "The Woman's Voice"?

sábado, 25 de abril de 2009

A pereba e minha ida ao médico

Uns dois textos atrás (o que falava sobre Schwarzfahren) comentei que havia ido ao médico. Faltou explicar o motivo.

Logo depois da semana santa, apareceu uma pereba no meu queixo, logo abaixo do meu lábio inferior. No começo era só uma vermelhidão, e achei que eram essas coisas que aparecem no frio porque nós, brasileiros, temos a mania de tomar banho todo dia (essa minha professora de francês ouviu de um médico na França uma vez). Ou então um abrasão resultante do creme com ácido retinóico que o dermatologista passou na minha última consulta no Brasil, e que eu não tive a prudência de testar antes. Só que o negócio começou a crescer, formava casquinha de ferida mas nada de melhorar. Sim, virou uma mega boqueira. E aí apareceu uma outra ferida no meu pescoço. Decidi que era hora de procurar um médico.

Como não tenho indicação nenhuma, resolvi procurar mais uma vez a Julia. Perguntei se ela tinha um médico qualquer de confiança, e ela disse que até tinha um clínico-geral onde ela costumava consultar-se, mas que ela achava melhor ir direto num dermatologista. Ela me ajudou a procurar no google um que fosse aqui perto, e assim fui eu, sem indicação nenhuma mesmo.

No primeiro dia cheguei lá meio tarde, o consultório estava cheio, e a secretária mandou em voltar na quinta, às 10h. Na quinta, o lugar continuava entupido -- muitas tias turcas de lenço na cabeça falando turco --, mas como eu havia chegado mais cedo, ela me encaixou. Mais de duas horas de espera depois (prometi a mim mesmo não reclamar mais de demora quando a secretária da minha dermatologista no Brasil me encaixa num horário), finalmente fui atendido. Era uma médica, na verdade, e acho que valeu o esforço: bastou ela olhar um pouco e ouvir os sintomas básicos para dar o veredito. Enfim, é uma infecção bacteriana -- ela até falou o nome, mas eu não me lembro. Estou tendo que tomar antibiótico e também passar uma pomada tópica, mas já está bem melhor.

O foda foi ficar dez dias com essa pereba na cara... ninguém merece.

Barrado no Baile

Ontem à noite quis ir numa boate aqui em Berlim que ainda não conhecia: a Watergate. Está na lista da DJ Mag como uma das dez melhores do mundo (aliás, há duas em Berlim, mas a outra, a Berghain, eu já conheço). Também costuma ser bem elogiada em listas de discussões por aí, e está bem cotada no meu Lonely Planet. Pois bem, ontem, o Sven Väth, um DJ de tecno conhecido, ia tocar lá, e eu queria ver.

Saí de casa meia-noite e pouco, pois não queria pegar muita fila. Em vão: quando cheguei na porta, ela já estava bem grandinha. Estava eu bem agasalhado, não havia problema em esperar; só que a fila anda numa lerdeza só, e eu esperei bem uns 40 minutos até chegar na porta.

Quando dei de cara com o leão de chácara, ele me perguntou: "quantos?". Respondi: "eu sozinho". Daí o cara disse: "hoje você não vai entrar". Minha ficha demorou a cair, até porque ele falou em alemão e eu não tinha entendido direito. Daí o outro segurança me olha e faz um gesto com a mão, indicando a saída.

Acabei me encontrando depois em um bar com uns italianos que conheci aqui na primeira semana. Um deles, que já está há um tempo em Berlim, me disse que é meio complicado mesmo entrar lá: em geral eles preferem grupos de dois e de três, e se eles perguntarem quem é o DJ que está tocando naquela noite, é bom saber a resposta (essa eu até sabia, e teria respondido com gosto se ele tivesse me perguntado). Contudo, eu fiquei observando as pessoas que estavam logo atrás de mim: havia dois caras juntos e, logo depois, um cara que também aparentava estar sozinho -- ao menos ele passou o tempo todo da fila com headphones nos ouvidos e não conversou com ninguém. E os três entraram.

Sei que isso acontece em muitos lugares, mas nunca tinha passado comigo -- nem em São Paulo, onde uma vez tive que passar pelo olhar clínico da Marcelona para entrar na finada Lov.e, que estava então no seu auge. Por isso, é inevitável se sentir nessas horas uma manga, ou uma carambola -- uma alegoria que costumo fazer quando digo que parece estar estampado na nossa testa l-a-t-i-n-o-a-m-e-r-i-c-a-n-o. Também não consigo entender muito a lógica dessas pessoas: alguém sozinho não costuma estar mais aberto para conhecer gente? Ou eles preferem que todos fiquem em seus grupinhos fechados mesmo?

Claro que não desisti de tentar conhecer o lugar: na véspera do Dia do Trabalho, aliás, tocará lá a Ellen Allien, uma ótima DJ alemã (viu, essa eu também sei a resposta). Mas é claro que fica um certo despeito, uma má-vontade de voltar por agora. De qualquer forma, terei que pensar em chamar alguém para ir comigo -- e minha opção de conhecidos aqui em Berlim ainda é bem restrita.

Afinal, não pude deixar de sentir também, depois de duas semanas de deslumbramento, que Berlim, a cidade über cosmopolita e internacional, também pode ter seu lado fechado e seletivo. Saudades do Brasil e das minhas amigas mangas e carambolas.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Apartamento

Algumas pessoas me perguntaram se o apartamento é mais ou menos o que estava na internet, naquele site que eu mandei para o povo quando eu o aluguei. Sim, é aquele mesmo. Até me surpreendi um pouco com tudo o que já tinha dentro. Claro que faltam algumas coisas: havia imaginado que houvesse um sofá na sala. De fato, há um grande canto vazio entre a sala e a cozinha, onde caberia muito bem um sofá, de repente um sofá-cama, para as visitas dormirem. Não há, e não sou eu obviamente que vou comprá-lo.

Abaixo, algumas fotos que eu tirei do apê:

 
 
 

Schwarzfahren


Aqui em Berlim n
ão há catracas nas entradas do metrô, nem cobradores em ônibus. O sistema todo funciona baseado na responsabilidade dos usuários e no auto-atendimento -- civilidade é isso aí. Assim, quando você chega numa estação de metrô, há maquinas em que você pode comprar um bilhete (algumas aceitam só moedas, outras notas e várias até cartão). Mas não basta só comprar; antes de embarcar, você tem que introduzir o bilhete numa outra maquininha, menor, e ela carimba o local onde você está e o horário. Isso porque, como não há catracas, o bilhete tem uma validade. Se não for algum cartão semanal ou mensal, ele vale por 120 minutos. Nessas duas horas, você pode usá-lo em qualquer meio de transporte público: no metrô (U-Bahn e S-Bahn), nos bondes e nos ônibus. Isso serve também para que as pessoas possam fazer conexões. Da mesma forma, isso já me permitiu, por exemplo, ir até um lugar resolver uma coisa e voltar, tudo com o mesmo bilhete -- dentro das duas horas, claro. Por conta disso, sempre deixo para carimbá-lo no exato momento em que o trem está entrando na estação, para que só então as duas horas comecem a ser contadas.

Claro que, em algum momento, eles soltam fiscais dentro dos trens -- totalmente vestidos à paisana -- que passam cobrando o bilhete das pessoas. Viajar sem um bilhete válido é chamado aqui de Schwarzfahren, e se você for pego nesta situação, tem que pagar uma multa na hora, que, eu acho, está em mais de € 40,00. Sem contar aquela humilhaçãozinha básica de toda a alemoada te olhando torto.

Da primeira vez que vim à Alemanha, morria de medo de ser pego em Schwarzfahren. Claro que, nessas mudanças de uma cidade para outra, acabava confundindo e andando de forma irregular -- na minha primeira viagem de metrô em Berlim, por exemplo, eu simplesmente não validei o bilhete na maquininha antes de embarcar, porque não sabia. Depois de ver as pessoas fazendo aquilo e de ler no guia a respeito, eu comecei a fazê-lo. Mesmo assim, em um mês de viagem eu passei apenas por um controle, em Colônia.

Dessa vez, tampouco é meu objetivo ficar usando o sistema público de transporte sem pagar. Ocorre que, outro dia, me vi num dilema. Cheguei na estação sem moedas para pagar o bilhete (atualmente, custa € 2,10). Tentei pagar com uma nota de € 20,00, e não funcionou. Tentei pagar com um cartão, e a máquina também não aceitou. Nesse momento, o metrô entrou na estação. Era de noite, de forma que os trens demoram mais para passar. Hesitei um pouco, mas entrei. Depois, tive que fazer um cambiamento, mas como desceria uma estação depois, resolvi continuar no Schwarzfahren -- afinal, já tinha ido até ali, uma estação a mais não ia fazer a diferença. Claro que fiquei super tenso, olhando para qualquer pessoa imaginando que ela poderia ser um fiscal. Não sei se à noite eles relaxam um pouco o controle, mas ninguém me abordou. E eu cheguei ao meu destino aliviado. Talvez goste de viver perigosamente.

O problema dessas situações é que, se funcionou uma vez, você acha que vai funcionar sempre. Hoje, fui ao médico e, como estava um tempo muito feio de manhã, resolvi ir de metrô -- embora fossem duas estações de metrô apenas da minha casa. Esperei mais de duas horas pela consulta e, na volta, fiquei tentado a fazer o percurso de volta sem comprar um novo bilhete. A plaquinha informava que em um minuto o metrô chegaria. Como há o Kurzstreckenticket, um bilhete de € 1,30 para viagens curtas, de até três estações, resolvi comprá-lo. Logo o metrô chegou e eu embarquei. Não é que apareceu um tiozinho cobrando o bilhete do povo? Aliviado, mostrei meu bilhete devidamente validado para ele. E decidi não abusar do Schwarzfahren mais. Talvez meu anjo da guarda seja muito forte, mas deve ter seus limites.

Acima: foto de dois bilhetes do metrô de Berlim. Na parte de cima deles, o carimbo com a data, a hora e o local da validação.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Mais da academia

Estava eu no vestiário da academia trocando de roupa depois de tomar banho na academia, quando entra a senhora da limpeza para pegar o lixo. É isso mesmo: A senhorA da limpeza. Mas como é isso, minha gente, que uma mulher entra num vestiário masculino cheio? Só porque ela é a tia da limpeza ela não tem olhos? Das duas uma: ou você seleciona um homem para esse trabalho (é o que geralmente acontece no Brasil) ou você espera uma hora em que o vestiário esteja vazio. Acho que nunca vesti cueca+calça tão rápido na minha vida.

Outro detalhe da academia que me chamou a atenção é que aqui não acontece de você revezar o uso de um aparelho com outra pessoa. Se você estava se dirigindo ao aparelho mas uma pessoa sentou nele primeiro, bau-bau, dançou, vai ter que esperar o outro acabar. E olha que aqui todo mundo, mas todo mundo mesmo, leva sua toalhinha para forrar o aparelho antes de usar (devo ser o único sem toalhinha por lá, porém, não tenho cecília). Ou seja: os equipamentos nem ficam nojentos quando outra pessoa usa. O jeito é tentar ir numa hora em que a academia esteja mais vazia. Ou então ir procurar outro aparelho.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Berlim e a crise econômica

Estava querendo escrever esse texto desde o dia em que cheguei. Dessa vez, fiquei espantado com a quantidade de gente pedindo dinheiro nas ruas -- coisa que não tinha observado da outra vez em que vim. Além do pessoal pedindo dinheiro, acho que a crise fica clara com a quantidade de gente também em trabalhos, digamos, "pequenos": as pessoas entram no metrô vendendo um jornaleco qualquer (sendo que o jornal do metrô é de graça), vendendo comida, até gente com aquele rodinho para limpar parabrisas no semáforo eu vi.

Salta aos olhos também a quantidade de gente bêbada na rua. Em dias de semana, é possível ver um indivíduo com uma garrafa de cerveja na mão, sentado em uma escadaria qualquer sob o sol.

Pode ser que eu esteja equivocado, mas não me lembro de ver tanta gente assim pedindo dinheiro ou em trabalhos informais nas ruas há dois anos. OK, da outra vez eu estava aqui só de passagem, não estava morando em Berlim, mas eu sempre tive o hábito de reparar, mesmo em viagens, nessas coisas cotidianas.

E engana-se quem pensa que essas pessoas todas têm cara de imigrantes ilegais. Muitas parecem bem alemãs mesmo.

Daí vão me perguntar: ora, mas ele veio do Brasil, e ainda se espanta com isso? Claro, porque aqui é a Alemanha, uma das maiores economias do mundo. E aqui é a capital da Alemanha, certo? No Brasil acho que a gente já está meio anestesiado e acaba nem reparando tanto nesses efeitos da crise econômica: mais ou menos uma pessoa pedindo dinheiro na rua, que diferença faz? Aqui, talvez, isso chame mais a atenção. 

Outro dia no metrô vi dois italianos comentando a respeito. Entrou um rapaz até de boa aparência vendendo jornal. Um deles falou: "mà un ragazzo così, vendendo giornali...", e o outro respondeu: "sì, non c'é lavoro qui in Germania". Aparentemente, não há trabalho para todos na Alemanha.

sábado, 18 de abril de 2009

Vista

Para quem ainda não tinha recebido meu e-mail, esta é a vista do apartamento que eu aluguei aqui em Berlim, em três momentos: de dia, no pôr do sol e à noite. A construção alta, para quem não sabe, é a torre de TV da Alexanderplatz, de que eu já falei aqui. Foi construída em Berlim Oriental na época comunista. De dia, com a luz do sol batendo, parece que a bola metálica forma um reflexo em forma de cruz. Daí o pessoal de Berlim Ocidental, na época, não perdoou: disseram que era a vingança do Papa. Ainda não subi lá: preguiça das filas de turistas. Mas está entre as minhas must-do things.

A torre de tijolos vermelhos, com um relógio, é a prefeitura, ou Rotes Rathaus, como eles chamam aqui (literalmente, prefeitura vermelha). Logo ao lado, à esquerda, dá para ver também a cúpula da Catedral de Berlim (Berliner Dom). E mais perto, na primeira foto, dá para ver o trem do S-Bahn (um dos tipos de metrô) passando. Ele também pára aqui na estação Jannowitzbrücke, depois de vir da Zoo-Bahnhof (a estação do zoológico, aquela onde a Christiane F. se drogava com os amigos), da estação de trem principal de Berlim (que faz a conexão com outras cidades), e da estação da Alexanderplatz.



Indo à academia

Hoje comecei a ir à academia aqui. Academia é mais ou menos a mesma coisa em qualquer lugar do mundo, acho eu. O preço, afinal, não é muito diferente do que a gente paga no Brasil. E não é muito longe daqui de casa, com a bicicleta em cinco minutos estou lá. A localização é até interessante, para uma academia: é bem debaixo da torre de TV da Alexanderplatz.

O instrutor que colocaram para me atender estava perdido, coitado; parecia que mal sabia o que estava fazendo. Não tem jeito; depois de sete anos em academia, a gente acaba ganhando um pouco de know-how a respeito. Ele quer, por exemplo, que eu faça o treino todo, com todos os músculos, todos os dias em que eu for à academia. Claro que não vai rolar: o músculo precisa de um repouso para recuperar-se e crescer. Mentalmente já dividi meu treino em dois, e assim vou fazê-lo.

Também a comunicação entre nós estava daquele jeito. Pedi para ele falar em inglês, mas mesmo assim as explicações ficavam meio tabajara. Anyway, olhar uma explicação de como se faz um crucifixo, depois de anos fazendo aquilo, tentando fazer cara de interesse, exige realmente muito esforço. De qualquer forma, já tenho uma série básica para tentar manter a forma por aqui; e sempre dá para dar uma incrementada com o que eu já sei depois desses anos todos.

Alguns detalhes bizarros: no meio do treino, pedi para beber água. E quem disse que eu achava bebedouro? Simplesmente não tem: ou você leva sua própria garrafinha, ou você compra água ou algum isotônico que eles vendem lá. Legal, né? Uma academia sem água de graça para os alunos. Já separei uma garrafinha de água mineral para levar, que eu vou encher devidamente na pia do meu apê.

Devo comentar também, com um pouco de maldade, que a cecília estava rolando solta no ambiente. Será que essas pessoas não passam um desodorante antes de ir malhar? Como dizia a Barbara Gancia, colunista da Folha, economizar no desodorante não pega bem nem no Carandiru. Enfim, é melhor eu me acostumar; ficar sem malhar por causa da falta de higiene alheia é que não vai dar.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Nikolaiviertel, Gendarmenmarkt e a bicicleta presa

Hoje, apesar do clima meio feio que se instalou à tarde, resolvi fazer mais um de meus passeios de bicicleta pela cidade, flanando sem destino. Quer dizer, tracei mais ou menos um percurso e saí pedalando.

Atravessei a ponte em frente ao meu apê (a tal Jannowitzbrücke, que dá nome ao metrô aqui do lado) e vi onde fica a Embaixada Brasileira em Berlim, na área do Märkisches Museum -- aliás, ela fica ao lado da Embaixada Chinesa! É um prédio moderno, com colunas estilo metálico e brises coloridos. Achei que faz jus ao modernismo brasiliense.

De lá saí e entrei na parte sul da ilha do Spree (o rio que corta Berlim), onde fica também, mais ao norte, aquela área de museus conhecida como Museum Insel. De lá cheguei a uma área que não havia conhecido na minha primeira vez na cidade: o Nikolaiviertel, um quarteirão com ares medievais. OK, o Lonely Planet diz que é tudo fake, foi construiído nos anos 80 pelo governo comunista para celebrar os 750 anos de Berlim. Mas é uma graça entrar naquele local, no meio do caos urbano, e ter a impressão de estar numa dessas cidadezinhas medievais do interior da Alemanha.

Depois passei pelo Gerndarmenmarkt, uma outra área que não havia visitado ainda. É uma praça imponente, com duas igrejas quase iguais, uma de cada lado, e uma sala de concertos no meio. Em volta, é a nova área glam de Berlim, com aquelas butiques básicas tipo Louis Vuitton, Gucci et al, além de hotéis e restaurantes bacanudos. Quem sabe com a visita de um de vocês eu não me animo a fazer um momento Mastercard num deles -- tipo o Vau (http://www.vau-berlin.de)?

Infelizmente como a luz não estava favorecendo, não tirei fotos. Mas prometo voltar depois com dia azul e fazer algumas fotos para colocar aqui.

A parte ruim do passeio: parei numa loja grande de livros e CD daqui, para procurar um presentinho para a Julia, como forma de agradecer as gentilezas que ela me fez. Acabei comprando um CD da Céu, como o que minha irmã me deu antes de vir, que é ótimo e é tipicamente brasileiro, sem apelar pro sambão. Havia prendido a bicicleta num daqueles canos próprios para isso; na saída, vi que um imbecil havia colocado a bicicleta dele do outro lado e prendido a minha junto no cadeado dele. Que ódio! Esperei cinco minutos, resolvi desencanar e ir jantar em algum lugar perto. Na volta o energúmeno já tinha saído. Mas se eu estivesse com papel e caneta ali teria deixado um bilhetinho bem desaforado para ele, ah se tinha!

Frio do capeta

É, minha gente, acho que o frio aqui está longe de ir embora! Vi no metrô que a previsão para amanhã é de mínima de 6 graus e máxima de 15... Sem contar que hoje, a partir das 16h00, o céu fechou um pouco, destoando dos dias lindos de sol e céu azul que estávamos tendo. Agora à noite até ameaçou chover um pouco.

OK, não é aquele frio do auge do inverno, mas é que eu vim já pronto para o clima primavera/verão. A sorte é que eu trouxe uma japona (acho que ninguém usa mais essa palavra) mais grossa e um cachecol. O resto são blusas de lã e alguns casacos finos, aqueles que a gente usa no friozinho normal da noite de Brasília.

E eu que estava doido para colocar logo uns dos shortinhos que eu trouxe e mostrar o que é que o brasileiro tem? ;-)

Mapas e metrôs

Estou andando em Berlim sem mapa algum. Seja à pé, de metrô, de bicicleta, acho que nenhuma vez levei mapa. OK, talvez esteja confiando muito no meu senso de orientação, mas acho a cidade, em geral, fácil de se locomover. Há a torre de TV da Alexanderplatz que sempre me dá uma ideia da direção que devo tomar. Também conta o fato de eu já ter vindo aqui outra vez. E afinal, bem, eu não estou me aventurando (ainda) pelos bairros mais distantes do centro (o mais longe que eu fui até agora, acho, foi Prenzlauer Berg, que nem é assim tão longe). De bicicleta, então, fica muito mais fácil: errei o caminho, é só voltar, tentar pegar outro. E dessa forma vou descobrindo a cidade. Acho legal sair dessa maneira, sem muita preocupação, e ir descobrindo aos poucos que tal rua chega em tal lugar e assim a cidade vai ganhando lógica na minha cabeça.

Desisti definitivamente de comprar um cartão mensal para o sistema público de transporte (incluí metrô, ônibus e bonde). Fiz as contas e descobri que teria que usar o sistema de transporte mais de 36 vezes num mês para compensar, e acho difícil que recorra a ele tantas vezes assim. Até tem uma estação do U-Bahn bem aqui atrás do meu prédio (Jannowitzbrücke) mas das vezes em que usei o metrô mais passei raiva do que adiantei o tempo. Há várias linhas e estações em obras -- e eu ainda não sei exatamente quais são, o que obriga o passageiro a fazer baldeações e a trocar de linha mais vezes do que o normal. Um saco. Outro dia perdi uma sessão de cinema na Potzdamer Platz porque pensei que 20 minutos eram suficientes para chegar lá de metrô. Pois se seu tivesse ido de bicicleta, tinha chegado a tempo.

Além do mais, como eu disse, à pé ou de bicicleta a cidade ganha lógica para mim, os lugares se interligam. De metrô você entra num buraco, e quando sai por outro, está num lugar completamente diferente. Por que lugares você passou para chegar até ali? Se andar só de metrô, jamais saberá.

Pode ser que eu mude de opinião depois de umas semanas. Que eu encha o saco de andar de bicicleta. Afinal, há uma estação de metrô do lado da minha casa, e outra em frente ao Goethe Institut (Weinmeisterstraße), onde eu vou estudar -- e elas são até da mesma linha, o que significa que eu não preciso fazer baldeação alguma. Se for esse o caso, kein Problem: eu compro o bilhete mensal depois.

Kino International

Hoje fui assistir a um filme no Kino International. Como era um filme italiano ("Il Divo"), achei que talvez eles pudessem usar legendas e, assim, eu poderia seguir mais facilmente o som original em italiano. Ledo engano. Aqui praticamente tudo é dublado -- vai entender por quê, se a Alemanha não deve ter praticamente mais ninguém analfabeto. Ou seja, da missa eu entendi a metade. Fala de Giulio Andreotti, um antigo Primeiro-Ministro italiano, que no começo dos anos 90 foi envolvido em escândalos de assassinatos políticos e da máfia. Apesar de ser um filme sobre política italiana, tem uma edição até interessante, com um trilha sonora moderna. Quase me acabei de rir quando há uma comemoração pela reeleição de Andreotti, com um sambão de escola de samba do Rio dentro de um daqueles palácios italianos, e a italianada toda caindo no samba. Vou tentar assistir depois com legendas em português, quando voltar ao Brasil; acho que vale à pena.

Mas eu fui mais pelo lugar onde estava passando o filme em si, o Kino International. Fica aqui pertinho de casa, dá para ir à pé, numa avenida chamada Karl-Marx-Alee. Esta rua, como o nome indica, foi criada na década de 50 para ser a "grande avenida" de Berlim Oriental. Vários blocos de apartamentos foram construídos, bem naquele estilo padronizado que me lembra um pouco Brasília. Com a reunificação ficou meio abandonada, com todas as atenções voltadas para a Unter den Linden, mas agora está sendo redescoberta aos poucos (bem aos poucos, pelo que vi), até porque é uma das avenidas que se esparramam da grandiosa Alexanderplatz.

Já o Kino International tem o que talvez a arquitetura modernista dos anos 60 tem de melhor a oferecer. É uma caixa de concreto com a fachada de vidro. Dentro, você se sente naqueles cinemas de antigamente, como não vemos mais -- infelizmente -- depois da era dos multiplex. O piso é de madeira, há lindos lustres pendendo do teto, e um bar servindo café, cerveja, vinho e outras coisinhas (o melhor é poder entrar bebendo dentro da sala). Quando a sessão começa, uma cortina dourada se abre. Talvez o Cine Brasília em seus tempos áureos fosse assim. Pouco me importou não ter entendido muito bem o filme. O cinema em si valeu à pena. Ahn, e nos finais de semana costuma haver festinhas por lá. Vou ver se apareço em alguma delas.

Tirei algumas fotos do Kino International para vocês terem uma idéia de como ele é.






Lindo, não?

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Início

Criei esse blog para tentar manter contato com os amigos do Brasil sem precisar ficar mandando e-mails sempre. Claro que assuntos específicos podem ser resolvidos por e-mail, mas tentarei contar os acontecimentos por aqui. Vamos ver se funciona -- e vamos ver se eu consigo atualizar com frequência.

O nome do blog é o apelido carinhoso que o Festival de Cinema de Berlim tem -- Berlinale. Não, eu não acompanhei o festival -- ele acontece em fevereiro.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Alemães

Muita gente comentou, depois do meu primeiro e-mail, a gentileza que a menina alemã fez, deixando um pouco de comida e me emprestando uma bicicleta. Alguns chegaram a insinuar que talvez ela quisesse favores sexuais depois (hehehehe). Anyway, talvez seja um pouco de estereótipo que todos nós temos, mas acho que todos nós pensamos em alemães como pessoas duras, frias, secas.

Pois eu não poderia ter tido melhor acolhida quando cheguei. OK, tive que pagar um mega excesso de bagagem no voo entre Frankfurt e Berlim, mas vamos deixar isso para lá. Quando cheguei na portaria aqui do prédio, toquei o interfone do apartamento da Julia (assim se chama minha hostess) e não havia ninguém. OK, ela disse que tinha se programado para estar aqui às 18h30, pois ela achou que eu ia demorar um pouco no aeroporto e depois para chegar até aqui. Eram 18h15 ainda. Havia, contudo, um porteiro que veio me ajudar com as malas. Quando expliquei para ele que havia alugado um apartamento e que Julia tinha combinado de me receber, ele logo se propôs a ligar do próprio celular para ela (eu só adquiri meu número aqui ontem). Ele disse que não haveria problemas pois o plano dele permitia um número indefinido de ligações. Ainda disse que eu falava bem alemão.

A Julia também sempre foi muito atenciosa. O apartamento, além do que eu já falei, tem várias coisas para eu usar. Há roupa de cama, edredon e toalhas. Havia várias coisas meio usadas, que ela deixou para mim, como sabão, detergente, amaciante etc. A cozinha é toda equipada com panelas, pratos, copos, talhres. Há cooktop, forno e uma kettler (como se chama isso em português?) para eu aquecer água para chá e café. Há incensos e velas, e um número enorme de livros aqui, de culinária, arte, fotografia, moda etc. Quando precisei aprender a usar a máquina de lavar, bastou tocar a campainha dela e ela se dispôs a me ajudar. Também quando disse que queria ficar um mês a mais aqui, ela disse que arranjaria tudo direto com a mãe dela, e que eu não precisava entrar em contato com a Home-Company (a empresa por meio da qual eu aluguei esse apartamento, e que cobra uma taxa bem salgada de agenciamento). E, para terminar, essa internet que eu estou usando aqui já estava disponível: há um roteador instalado, e ela deixou um papel com o nome do usuário e a senha.

Claro que eu já conheci alemães grosseiros. Da outra vez em que aqui estive, cheguei a chorar de raiva um dia em que só topei com gente grossa. Eles estão mais presentes aqui que aí no Brasil? Não saberia dizer. O fato é que precisamos também saber reconhecer diferenças culturais. Aqui, você tem que seguir as regras. Se você não as segue, pode ser que você receba uma chamada. Se você estiver andando à pé pela faixa de bicicleta, por exemplo, pode ganhar um "Achtung!" bem alto ao pé do ouvido para aprender a ficar esperto. Funciona um pouco assim. Mas isso não quer dizer que não haja pessoas aqui doces e prestativas.

Tive a sorte de ter uma professora de alemão que é uma simpatia -- mas ela também mora no Brasil há uns trinta anos. A própria Julia me disse que uma de suas avós morou no Brasil até os 16 anos, em Porto Alegre, quando a família então voltou para a Alemanha -- será que isso tem a ver? Só sei que alemães há de vários tipos, e é bom lembrar que eles estão muito mais acostumados e viajar para destinos "exóticos" com culturas diferentes. Por isso, costumam ser muito mais tolerantes com as diferenças.