sexta-feira, 29 de maio de 2009

Pro-Ethik e Pro-Reli


Logo quando cheguei em Berlim, havia várias campanhas espalhadas pela cidade, a respeito de um plebiscito que ocorreu ainda no mês de abril. Os berlinenses (a consulta aplicava-se apenas à região de Berlim) deviam dizer se concordavam com a manutenção das aulas de ética nas escolas, ou se queriam que os estudantes tivessem a possibilidade de escolher entre tais classes e aulas de religião. As posições, em suma, foram resumidas em dois grupos: "Pro-Ethik" e "Pro-Reli".


Pelo que eu pude apurar, há muito tempo atrás havia aulas de ensino religioso nas escolas (obviamente só do lado ocidental), mas elas foram substituídas por aulas de ética -- daí a polêmica. Recentemente, alguns grupos começaram a achar que os estudantes deviam poder escolher entre uma e outra. Na realidade, o plebiscito foi realizado apenas para conhecer a opinião dos cidadãos, já que quem vai decidir mesmo é a Câmara local. Não deixa de ser interessante, de qualquer forma, que eles tenham consultado a população antes de decidir.


Na realidade, não entendi muito bem a discussão. Gente, será que eu sou meio burro? Para mim, ética é ética, religião é religião, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Até se pode discutir religião em uma aula de ética, mas ela não se restringe (ou não deve se restringir) a isso. Em alguns cursos superiores, por exemplo, cadeiras de ética são obrigatórias. Mesmo quando não estamos falando de "ética profissional", na Universidade a disciplina de Ética é, em geral, oferecida pelos departamentos de Filosofia, enquanto religião tem mais a ver com Teologia. De qualquer forma, acho muito interessante que alunos já tenham aulas de ética na escola secundária, principalmente em um país que já teve (e ainda tem) problemas com o nazismo. Portanto, não entendo porque os alunos devam ter o direito de escolher entre ética e religião. Há a possibilidade de você escolher se quer ou não estudar matemática na escola? Então, acho que funciona mais ou menos da mesma forma.


Bem, daí surge uma outra discussão: e porque não se pode ter acesso a ambas as disciplinas na escola? Alguns partidários da "Pro-Reli" estavam usando esse argumento. Acho que o cartaz pregado numa parede do bairro de Kreuzberg (foto acima, de minha autoria) é bem esclarecedor a respeito. Com desenhos e um texto simples, ele questiona: "Pro-Reli? Por que não? Porém, não aqui (na escola), mas na igreja, na mesquita, na sinagoga. Por isso, em 26 de abril, marque 'não'". Pois é, é exatamente o que eu penso. O estado não é laico, ora bolas? Porque escolas públicas ou particulares sem orientação religiosa têm que gastar dinheiro para oferecer aulas de religião? Não estou falando, obviamente, daquelas escolas religiosas, onde, todos sabem, as aulas de ensino religioso vêm no pacote. Quando era adolescente, minha mãe, católica, me inscreveu em aulas de catequese e crisma na igreja do nosso bairro, onde, aos sábados, tive formação a respeito da doutrina católica. O mesmo acontece com outras religiões, que também oferecem "aulas" para jovens a respeito da fé que professam. É nesses lugares que as aulas de religião devem acontecer, de acordo com a fé e o interesse dos pais. Nas escolas, não consigo entender o sentido das aulas de religião.


Adendo: esqueci de comentar, mas a maioria votou no plebiscito pela manutenção das aulas de ética... ainda bem.

København

Estou devendo aqui um relato um pouco mais detalhado da minha viagem a Copenhagem, junto com algumas fotos. Copenhagem fica na verdade numa ilha. A Dinamarca tem uma parte continental, conhecida como Jutlândia, e várias ilhas. Graças à riqueza geral do país, tudo é bem interligado por pontes e trens. Aliás, em 2000 foi completada a Øresund Link, uma ponte de quase 8 km que cruza o estreito de mesmo nome, no Mar Báltico, e liga Copenhagem à cidade sueca de Malmö.

O primeiro impacto que tive de Copenhagem foi logo no aeroporto, moderno, com uma arquitetura incrível. Cabe aqui um parênteses. Berlim já teve três aeroportos -- coisas de cidade dividida --, hoje tem dois em pleno funcionamento: o Tegel e o Schöneberg. Eu só conheço o primeiro e ele é bem bagunçado: não uma separação clara entre embarque e desembarque, há lojas no meio dos balcões das companhias, terminais que não se comunicam internamente. Quase uma rodoviária. Tudo bem, eu aprendi que o Tegel foi construído às pressas, de improviso, no período da Luftbrücke, quando a URSS bloqueou os acessos por terra e água entre Berlim Ocidental e o resto do território controlado pelos aliados do ocidente. Pessoas e coisas só chegavam à cidade de avião. Mas acho que hoje em dia a capital da Alemanha merecia um aeroporto mais organizado.

Pois bem, o aeroporto de Copenhagem é o oposto, refletindo o que o design escandinavo tem de melhor. Sem contar que tem um trem que custa € 5,00 e liga o aeroporto à Estação Central da cidade em 13 minutos. Muito civilizado.

Como já relatei no blog, num texto que escrevi no albergue, quando ainda estava lá, no primeiro dia choveu praticamente o tempo inteiro. Enfiei-me na NY Carlsberg Glyptotek, um dos museus mais bonitos que já visitei -- não tanto pelo acervo (se bem que eles têm uns quadros do impressionismo francês bem bacanas), mas pelo ambiente interno, onde me senti dentro de um verdadeiro palácio. No resto do dia, deu para andar muito pouco pela cidade.

À noite fui a um bar onde estavam passando a final do Eurovision. Quem já esteve na Europa nessa época sabe como esse festival de música movimenta as pessoas por aqui. Já tinha observado um pouco em 2007, quando estava em Munique, mas como a gente não ouve falar a respeito no Brasil, nem entendi direito do que se tratava. Os países apresentam os números musicais em dois dias, e, no sábado, acontece a final: cada país tem o direito de distribur um determinado número de pontos, mas não pode premiar o próprio candidato. O país vencedor ganha o direito de sediar o festival no ano seguinte.

Neste ano, parece que o candidato da Dinamarca era meio fraquinho, porque a torcida lá estava dividida entre outros países nórdicos: uma parte torcendo por uma soprano da Suécia que se apresentou com um dance lírico, se podemos chamar assim; outra por uma cantora linda da Islândia; e, por fim, uma grande porção torcendo pela Noruega, que inscreveu um garoto que parece ter 14 anos, mas cantou uma música falando sobre o amor (achei terrível, aliás). Ganhou o rapaz da Noruega, em segundo a islandesa -- para vocês verem a força dos países nórdicos no festival. Tudo é muito cafona, vocês precisam ver, mas é incrível como o povo se organiza para torcer. Anyway, cantores e grupos consagrados, como o ABBA, já passaram por ele.

Se no primeiro dia choveu muito, no segundo fez um dia lindo -- o que não quer dizer que tenha feito calor. Como disse, no primeiro dia, com chuva, o termômetro marcava 12 graus às 9h30 da manhã. No segundo, até por volta das 14h, até que o tempo estava mais quentinho, mas depois o frio veio com força. Me virei com um paletó de veludo e com um cachecol de lã, porque o resto ficou na mala, que eu deixei guardada na estação no começo do dia, quando saí do albergue (o qual, por sinal, sequer tinha local para deixar as bagagens pós check out). Até tentei alugar uma bicicleta para facilitar a locomoção e me sentir em casa -- os dinarmaqueses são conhecidos por usar a bicicleta para quase tudo -- mas, como era domingo, tudo estava fechado.

A cidade é linda e limpa -- um verdadeiro choque para quem vem de Berlim, que, vamos combinar, é bem bagunçada (o que tem o seu charme também). Por ficar numa ilha, há vários canais e ilhotas dentro da cidade, o que dá um certo ar de Amsterdam ao local. Dei uma volta na Slotsholmen, uma ilha bem no meio da cidade com vários palácios -- o maior é atualmente usado pelo Parlamento. Lá também fica a Biblioteca Real, a qual ganhou recentemente um anexo todo moderno em granito preto, que logo ganhou o apelido de "Black Diamond". De lá cruzei a ponte para uma outra ilha onde fica o bairro de Christianshavn. O lugar é bem bonito, cheio de cafés e canais. Lá fica a Vor Frelsers Kirke, uma igreja com uma torre em espiral de onde se tem lindas vistas da cidade -- apesar de a subida por escadinhas estreitas ser desaconselhada para quem tem tonturas ou problemas nas juntas.

Em Christianshavn também fica a famosa comunidade alternativa (antigamente hippie) de Christiania. Foi fundada na década de 70 e se pretende uma comunidade autônoma -- há uma placa na saída indicando "você está entrando na União Européia"! Ficou famosa também pelas drogas meio liberadas, mas parece que a polícia andou dando umas batidas por lá e o negócio ficou mais complicado. No geral achei meio caído, talvez a única parte de Copenhagem meio suja. Vi, sim, gente vendendo droga e fumando maconha, mas também vi famílias com crianças aproveitando o dia de sol para fazer um piquenique -- enfim, a famosa tolerância escandinava. Em Christianshavn também passei pelo lindo e moderno prédio novo da Ópera de Copenhagem, bem de frente para o canal que liga a cidade ao mar.

Voltei para o centro, almocei e dei mais uma volta para ver os inúmeros prédios antigos da área, parecendo vários castelos. Vi o Palácio Amalienborg, onde mora a família real da Dinamarca. Estilo Palácio de Buckingham, mas você vê tudo bem mais de perto -- o risco de algum ataque terrorista ali talvez seja quase nulo. Andei para burro e quase congelei de frio para ver a famosa Pequena Sereia, um dos símbolos da cidade. O Lonely Planet já tinha xoxado dizendo que não era nada demais e que a fama era injusta. É a mais pura verdade. A estátua é pequena e fica em cima de uma pedra nas margens do canal principal. E um monte de turistas bobos como eu em volta tirando foto. Mas, como ouvi certa vez, quando você faz turismo tem que fazer coisas típicas de turista.

A longa caminhada de volta de volta sob o vento frio que vinha do mar só me deixou tempo e ânimo para tomar um café. Depois fui para a Estação Central pegar o trem até o aeroporto. Fiquei triste de não ter conseguido visitar o Tivoli Gardens, um dos parques de diversões mais antigos do mundo, com mais de 160 anos. É meio caro para entrar, mas meu lado criança estava doido por uma volta na montanha russa. Tirei apenas algumas fotos do lado de fora.

Há ainda duas coisas sobre Copenhagem que eu gostaria de comentar. A primeira é sobre os preços. A Dinamarca não usa o euro, mas a coroa dinamarquesa -- o que, obviamente, dá trabalho para os turistas. A moeda local vale cerca de sete vezes menos que o euro; por isso, preços com mais de dois dígitos para coisas banais, como um almoço, são comuns, ao contrário da zona do euro. O problema é que as coisas realmente são caras. Mesmo convertendo os preços para o euro (real nem passou pela minha cabeça), achava os valores bem salgados -- o que dizer de um almoço normal que custou € 40,00, coisa que praticamente não vi aqui em Berlim? Tudo bem, isso era esperado, pois havia lido que Copenhagem é uma das cidades mais caras do mundo. E por dois dias apenas não tive nenhum rombo de orçamento.

O segundo ponto são as pessoas. Achei Copenhagem uma cidade bastante plural, apesar de ter um ar de cidadezinha do interior. A sensação da presença de imigrantes na cidade, por exemplo, é bem maior do que em Berlim. Aqui vejo bem menos pessoas negras do que vi lá. De qualquer modo, as pessoas são extremamente simpáticas com forasteiros -- muita gente puxou papo comigo. Eles tinham muita curiosidade em saber porque eu quis conhecer a cidade deles -- eu sempre respondia: why not? Têm um pouco de birra com os alemães (coisas de guerras passadas talvez) mas no geral gostam de Berlim. E o inglês é amplamente falado, até em birosquinhas no meio da rua, o que facilita muito as coisas para os turistas. Apesar de achar a língua deles bizarrinha, com aquelas vogais cheias de sinais gráficos diferentes, ficava até feliz em ver coisas em dinamarquês. Sinal de que o inglês ainda não dominou por completo por lá.

A seguir, algumas fotos de locais que mencionei aqui.


A Estação Central (København Hovedbanegården)


O prédio da prefeitura e sua praça (Rådhuspladesen) ficam bem no centro de Copenhagem


A entrada do Tivoli Gardens, bem em frente à praça da Prefeitura


A entrada da NY Carlsberg Glyptotek

Dentro da Glyptotek, uma pianista reforçava o "ar clássico" do local

Jardim dentro da Glyptotek

Achei linda essa escultura da menina com o passarinho

Linda bicicleta em uma vitrine

Lado Amsterdam de Copenhagem


Tivoli Gardens à noite

O anexo da Biblioteca Real, conhecido como "Black Diamond"

Black Diamond

Canal em Christianshavn


Torre em espiral da 
Vor Frelsers Kirke


Vista da torre. Lá no fundo, aparece a ponte Øresund Link


Entrada de Christiania


"Você está entrando agora na União Européia", avisam quando você sai de Christiania


Ópera de Copenhagem

Dá para ver minha cara de frio? Ao fundo, a Pequena Sereia


As lindas cadeiras de Arne Jacobsen povoam coloridas o aeroporto de Copenhagem

segunda-feira, 25 de maio de 2009

E assim chegar e partir são só dois lados da mesma viagem...


Semana passada recebi aqui no meu apê a visita do querido amigo Márcio, aí de Brasília. Antes de eu vir ele já estava cogitando em passar alguns dias aqui, já que ele passaria quase vinte dias viajando com o pai na Itália, e poderia estender um pouco mais as férias para me visitar. Fiquei feliz que deu certo, pois sua visita foi como matar um pouco as saudades de Brasília e de todos aí.

Ele chegou na terça, e fui buscá-lo no Tegel (um dos aeroportos de Berlim). Ele disse que não precisava, e cheguei a passar o endereço aqui de casa para ele pegar um táxi, mas acabei me decidindo por ir até lá recebê-lo, já que ele chegava pouco depois do término da minha aula no Goethe.

Buscar é uma maneira de expressar-me, pois eu fui de metrô e ônibus e viemos para casa de táxi. Lembrei-me de que quando visitei a Mariana na Austrália e a Martha em Genebra, ambas foram me receber no aeroporto, e acho que isso, para quem chega em outro país -- ainda mais quando não se fala a língua local -- é uma delicadeza muito bem vinda. Tem coisa mais legal do que chegar no aeroporto, cansado depois da viagem, e ver um rosto conhecido nos esperando? Acho que deveríamos fazer mais isso.

Além disso, enquanto eu esperava ele sair do portão, fiquei observando as demais pessoas que estavam esperando outros passageiros. Havia pais com crianças, como uma linda menininha que foi com o pai esperar a mãe, um buquê de flores numa mão e um desenho feito por ela na outra. Gente com cachorro que não parava de latir assim que viu o dono. Gente que se abraçava longamente, que segurava bebês que ainda não conheciam, que saía correndo mal o portão se abria. Fiquei muito feliz em ter resolvido ir buscar o Márcio e ter visto tudo aquilo. É bom ver que a atitude das pessoas nessa hora é mais ou menos a mesma, seja na sisuda Alemanha, seja no Brasil.

Depois de vinte dias na Itália, Márcio estava meio cansado de monumentos. Mesmo assim fiz um rápido city tour com ele, mostrando os principais pontos. Ele ainda conseguiu visitar dois museus, enquanto eu estava na aula. Saímos bastante, espero que ele tenha se divertido antes de voltar ao batente. E quanto ele foi embora ontem, senti uma pontinha de inveja. Inveja por ele estar voltando para o Brasil e eu ficando. Mas não há de ser nada, pois os próximos dois meses hão de passar rápido.

Acima: eu e Márcio na Tauentzienstraße, com a Gedächtniskirche ao fundo.

sábado, 16 de maio de 2009

O Albergue

O albergue em Copenhagem nem é lá essas coisas, já conheci melhores. OK, eles deram uma arrumada no lobby, tá moderninho, mas o resto é mais ou menos igual ao que há por aí. Além disso, passei uma raiva danada na minha primeira noite.

Quando cheguei no quarto que eles me indicaram, todas as camas estavam ocupadas pelo menos com algum objeto pessoal. Claro, podia ser que alguém tivesse jogado suas coisas em uma das camas que estavam vazias e "esqueceu" de tirá-las, mas não tinha como eu saber em qual havia alguém dormindo e qual estava sendo usada apenas de "prateleira". Havia apenas uma senhora mais velha no quarto, e ela tampouco soube dizer quais camas estavam ocupadas.

Voltei na recepção e disse que todas as camas pareciam estar usadas. O rapaz falou que de acordo com o sistema isso era impossível, e disse que eu tinha que procurar pelas camas sem lençol. Respondi que havia apenas duas sem roupa de cama (quase soltei um shit ao invés de sheet para mostrar bem meu estado de ânimo) -- e em uma delas a tia me disse ter certeza de que havia alguém. Pois bem, o recepcionista mandou eu pegar as coisas que estavam na outra cama sem lençol e jogar no chão. Ri na cara dele e quase mandei ELE fazer isso, já que minha mãe tinha me dado educação, mas deixei para lá. Voltei ao quarto e cuidadosamente depositei as coisas no chão. Coloquei a roupa de cama e saí para comer e conhecer um pouco da noite.

Pois na volta, de madrugada, o que aconteceu? Na cama que eu havia arrumado havia uma creuza dormindo. Havia apenas uma outra cama vazia, com lençol. Mais uma vez lá vou eu para a recepção. O mesmo rapaz me atende, vestido elegantemente num terno preto e gravata fininha preta. Dessa vez ele me mandou eu acordar a menina e expulsá-la da cama. Resolvi apelar. "No, I'm not doing this, I'm not supposed to do this, I'm a guest, not staff". Eu estava levemente alto, mas não estava louco. Era de madrugada, eu tinha bebido, e tudo o que eu queria era encostar em um lugar. Deu vontade de fingir que sou milionário, pegar minhas coisas e ir bater num hotel podre de chique -- e olha que aqui em Copenhagem eles são bem caros.

Bem, o rapaz disse que eu poderia então dormir na cama que estava vazia. Eu disse que tudo bem, mas que não iria dormir nos lençóis que já estavam lá. Ele me deu roupa de cama nova e lá fui eu, no meio da madrugada, arrumar minha cama. Claro que fiz isso com bastante má vontade, de modo que algumas pessoas no quarto acordaram e me olharam feio: como se fosse minha culpa. Claro que a creuza que estava na minha primeira cama não foi uma das pessoas que acordou. Enfim, não vou ver esse povo nunca mais na minha vida, fingi que não era comigo.

Ccomo se não bastasse, de manhã a bonitona da bala chita toma um banho bem demorado, tipo meia hora. Os banheiros ficam dentro dos quartos, e não há banheiros extras do lado de fora. E eu lá me segurando para não me mijar.

Sinceramente, jamais imaginei passar por essas coisas em um albergue na Escandinávia. Se fosse, sei lá, na Itália ou na Espanha, acho que nem teria me surpreendido.

Chuva na cabeça

O dia em Copenhagem foi meio inútil por causa da chuva. Não está caindo uma chuva torrencial, mas é daquelas chatas e constantes. Quero saber quem foi que mandou essa uruca para a minha viagem!

Acordei às 9h30 com o relógio digital de um prédio ao lado do albergue marcando 12 graus! Quando em uma cidade faz 12 graus em uma manhã de meados de maio, faltando pouco mais de um mês para o verão, você sabe que não quer estar nela de jeito nenhum no inverno!

De manhã entrei num dos museus daqui, a Glyptotek. Nem estava muito a fim de ficar dentro de museu, queria andar pela cidade, mas realmente não aguentava mais chuva na cabeça. Depois de almoçar -- dividindo a mesa com um casal francês bem simpático, de Lyon --, fui tentar andar mais um pouco, mas terminei por me enfiar numa loja de departamentos. Acabei comprando uma camiseta -- provavelmente a mais cara que comprei nos últimos tempos, mas, paciência, aqui é Copenhagem, não o Saara no Rio -- e tomei uma taça de Moet et Chandon no bar da loja -- também provavelmente a mais cara dos últimos tempos. Enfim, viajar sem gastar nada também não dá.

Tirando esse detalhe do clima, a cidade é uma graça e os prédios do centro parecem um monte de castelinhos um ao lado do outro. É ultra civilizada, limpa -- foi um verdadeiro choque chegar da bagunçada Berlim e me sentir em outro mundo. Já à noite o pessoal parece ficar bem maluquinho. Não parava de rir com o que vi ontem à noite. Em primeiro lugar, ao sair de um bar que ficava dentro de um pátio, me deparei com um casal fazendo sexo na maior, na escada interna do lugar -- e olha que o bar estava relativamente movimentado. Não resisti e soltei: "at least someone is having fun here..." Depois, esperando o sinal para atravessar uma rua, vi uma menina descalça, com os sapatos na mão -- sim, estava MUITO frio. Achei as experiências antropológicas. Mas as pessoas são simpaticíssimas e sempre puxam papo: perdi a conta de quantas pessoas conversaram comigo ontem.

Vamos torcer para amanhã o tempo estar melhor e eu poder tirar fotos mais bonitas da cidade para colocar aqui. Depois do fim da viagem, eu tentarei fazer um relato mais completo.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Taler De engelsk?


Esse final de semana resolvi mudar um pouco de ares: vou para Copenhagen. Vai ser só uma viagem bate-e-volta: vou na sexta à noite, volto domingo à noite. Como me disseram que a cidade é compacta, acho que dá para conhecer um pouco. Achei passagens relativamente baratas, e vou ficar num albergue com design moderninho (esse aí da foto). É bom também mudar um pouco, já que desde que cheguei à Europa só fiquei em Berlim. Além do mais, é só uma horinha de avião, mais perto que ir de Brasília a Salvador. Só espero que não esteja fazendo frio demais, porque, se Berlim ainda está bem friorenta, o que esperar de Copenhagen que, vamos combinar, fica quase no Círculo Polar Ártico? Quando voltar coloco algumas fotos aqui.

O título significa: Do you speak english?, em dinamarquês.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Galerias de arte do Scheunenviertel



No geral estou gostando do curso no Goethe. Como disse, é meio corrido, mas temos apenas um mês de aula, então não tem como ser muito diferente. Uma das coisas realmente boas é a quantidade de eventos paralelos que eles oferecem. Há passeios pela cidade acompanhados de um professor que faz comentários sobre os lugares, palestras sobre temas diversos, programas esses gratuitos. Há também visitas guiadas a museus, noites no cinema e no teatro -- em geral, com valores reduzidos para a entrada. Semana passada, por exemplo, assisti a uma palestra sobre a República de Weimar com um historiador. Ponto para mim porque a palestra era em alemão e eu entendi boa parte.

Os programas também acontecem nos finais de semana, então nesse sábado fiz um passeio com uma professora pelas galerias de arte do Scheunenviertel. Em geral tenho uma postura independente para visitar locais de exibição de arte -- vou vendo no meu ritmo e, quando algo me chama atenção, paro para observar melhor. Por isso, não quis acompanhar as visitas guiadas a museus -- até porque já conheço boa parte deles e a maioria oferece aqueles guias de áudio com informaçoes sobre as obras principais. Porém, visitar galerias de arte sempre é mais complicado. Em geral elas são espaços pequenos, muitas vezes meio escondidos, que até intimidam um pouco os visitantes aventureiros como eu. Além disso, é mais difícil para quem não é local ou connaisseur pinçar as coisas boas no meio de uma grande oferta. Por isso resolvi aproveitar esse passeio -- até porque foi sábado à tarde, aquele período em que a gente não costuma fazer nada muito produtivo.

O Scheuneviertel é uma parte do Mitte que também ficava em Berlim Oriental e vive, atualmente, um verdadeiro boom. Inúmeros cafés, restaurantes, bares, lojinhas de marcas famosas ou de designers locais, livrarias, salões de beleza, lojas de comida, de bebida, de chocolate -- enfim, de tudo um pouco -- abriram por ali. Além, claro, das galerias de arte. É onde fica o Goethe Institut também -- ou seja, não é muito longe daqui. É um dos meus lugares preferidos da cidade e, mesmo antes de as aulas começarem, muitas vezes ia para lá procurar um lugar para comer ou para tomar um café.

Antes da Segunda Guerra era uma área ocupada por muitos judeus -- na Oranienburgerstraße, por exemplo, fica a Neue Synagoge, que por pouco não foi queimada durante a "Noite dos Cristais" e que hoje é museu e centro cultural. Também tinha muitas fábricas, o que tem sido bem aproveitado por galerias. Não foi uma área severamente destruída durante a guerra, mas, durante os anos comunistas, pouca reconstrução foi feita -- a Tacheles, centro cultural de que já falei, fica nessa área também. Por isso, logo após a reunificação, os aluguéis baratos atraíram galerias e artistas independentes; hoje, obviamente, o metro quadrado já está bem caro. Consta que hoje existam mais de cem galerias na área, que nem é muito grande. Em Berlim toda são mais de seiscentas, o que definitivamente torna a cidade uma meca da arte contemporânea.

Na verdade, muitas das galerias do Scheunenviertel, começaram de forma bem independente e autônoma e, apenas depois de muitos anos de trabalho, ganharam reconhecimento. De acordo com minha professora, é um movimento que tem pouco mais de quinze anos -- o que é realmente muito novo. O ponto crucial foi a primeira Documenta de Kassel (uma mostra de arte que acontece a cada cinco anos em Kassel) pós-reunificação, no começo da década de 90, quando vários galeristas foram até lá levar o trabalho de artistas locais novos e convidaram críticos ocidentais para conhecer suas galerias. Depois que o movimento se estabeleceu, muitos galeristas de Berlim Ocidental se mudaram ou abriram filiais nessa área. Alguns poucos galeristas são oriundos de Berlim Oriental e, por isso, são vistos como pioneiros também (visitamos uma de uma galerista da época comunista, mas eu perdi o portfólio, por isso não me lembro do nome).

Algumas galerias na região realmente ficam meio escondidas. Muitas ficam dentro de "höfe", aqueles pátios internos com jardins, tão comuns nos prédios de antigamente. Vários desses höfe tinham residências na parte da frente, voltadas para a rua e, na parte de trás, pequenas fábricas e manufaturas. Muitos foram recuperadas depois da reunificação e têm uma mistura interessante de residências particulares, escritórios, galerias e até restaurantes.

A visita guiada valeu à pena porque a professora que nos acompanhou era muito bem informada -- esse povo, quando quer fazer uma coisa bem feita, sabe muito bem como. Ela contava a história das galerias, qual o background dos galeristas, em que tipo de arte ou nicho cultural ela era especializada -- em suma, porque valia a pena visitá-la. Também falava um pouco sobre os artistas em exposição.

A galeria Alexander Ochs, por exemplo, é especializada em arte oriental, principalmente a chinesa -- eles têm outra galeria em Pequim. Atualmente tem uma exposição com um artista chamado Yang Shaobin, que tem telas bem fortes, e que estará em exibição no MASP de 13 de agosto a 18 de outubro (fica a dica!).

A galeria Eigen+Art foi chamada pela professora como a "galeria número 0" do Scheunenviertel. São originários de Leipzig -- onde ainda mantêm uma galeria -- e foram um dos primeiros a se instalar no bairro. Estavam com uma exposição de um artista chamado Maix Mayer, que trabalha com fotos e vídeos sobre intervenção urbana e a vida na cidade. 

A galeria Barbara Thumm (a galerista é também artista, com formação na Inglaterra) trazia obras de Martin Dammann, na verdade fotografias escolhidas de coleções particulares de ex-soldados alemães (vários inclusive nazistas), em geral vestidos de mulher -- brincadeiras para distrair o front -- trazendo um lado diferente dos sisudos militares que os filmes normalmente não mostram.

A galeria Wolfram Völcker estava com xilogravuras lindas do Georg Baselitz. A Zwinger Galerie trazia trabalhos de um(a) artista que ninguém nunca viu, chamado(a) Susi Pop. Minha professora desconfia que seja o próprio galerista. Os trabalhos atuais são na verdade reproduções em rosa (cor preferida do(a) Susi) de obras que foram roubadas, ou foram criadas para atender a encomendas particulares e atualmente estão expostas ao público em museus; ou seja, questionamentos sobre os limites públicos/privados das obras de arte.

Há também coleções privadas, como a Sammlung Hoffmann, uma família de colecionadores que veio da Alemanha Ocidental e recuperou um desses höfe na área -- onde fica também a galeria Alexander Ochs. Eles têm uma casa no local e a abrem para que as pessoas possam ver sua coleção -- é necessário ligar e marcar horário.


Pátio que dá acesso à Galerie Barbara Thumm. Notem a parede atrás bem antiga, provavelmente original. Na frente, nossa guia.


Trabalho do artista Martin Dammann, exposto na Galerie Barbara Thumm


Trabalho do artista chinêsYang Shaobin, na Galeria Alexander Ochs


Parte do hof recuperado pela família Hoffmann, com inscrição feita por artista (adjetivos opostos em alemão)


O mesmo pátio


Outro pátio que faz parte do mesmo complexo da família Hoffmann. Lá em cima, outra galeria de arte


Gravura de Georg Baselitz exposta na Galeria Wolfram Völcker


Pafleto da mostra do(a) artista Susi Pop na Zwinger Galerie

No alto: entrada da Galeria Eigen+Art

Bebidas típicas de Berlim -- Africola



Aqui em Berlim, claro, tem coca-cola (pepsi é meio raro, acho que nunca vi). Mas eles têm também a sua versão local -- a Africola. E, talvez por um certo ar cool de resistência em relação ao gigante concorrente capitalista, vários bares e casas noturnas vendem só Africola.

Não sou daqueles freaks que sabem pelo sabor a diferença entre coca normal, diet, light e zero -- na verdade, eu não diferencio nem coca de pepsi, talvez por não consumir muito esses refrigerantes. Então, para mim, a Africola tem um gosto normal, parecido com o das outras. Dizem que tem mais cafeína, mas como sou "cafeísta" (versão "café" de tabagista), este detalhe me passou despercebido. E acho super cool-berlinense desfilar por aí com uma garrafinha de Africola -- que, diga-se de passagem, tem um design bem legal.


La Traviata



Depois do breve intervalo "momento saúde", voltemos
a assuntos mais amenos.

Sexta-feira fui com um amigo italiano que conheci aqui assistir à opera "La Traviata" na Deutsche Oper. Como ele estuda música -- vai começar logo o doutorado em piano na Technische Universität -- já o tinha intimado várias vezes para um programa de música clássica. Berlim pode ser um paraíso para amantes da noite e de música eletrônica, mas é bom lembrar de sua vasta tradição também na música clássica. E a ópera é uma ótima forma de conhecê-la e aproveitá-la, já que une música e teatro, apresentando a música de uma forma mais "lúdica".

A Deutsche Oper é uma das três de Berlim. Isso mesmo, Berlim tem três casas de ópera. Se bobear há até mais por aí, mas essas três são as mais conhecidas e frequentadas. Parte dessa "multiplicação" se dá por conta da antiga separação da cidade em duas e acontece também em outros espaços culturais (possivelmente abordarei o assunto quando falar dos museus). Com a reunificação, a Staats Oper, na majestosa Unter den Linden, reganhou o status de casa de ópera mais tradicional, mais grandiosa de Berlim. Um pouco mais adiante na Unter den Linden fica a Komische Oper, que costuma ter uma abordagem mais "moderna" da ópera -- a montagem da ópera Arminda, por exemplo, está dando um bafafá por aqui pela quantidade de gente pelada no palco.

A Deutsche Oper era a ópera de Berlim ocidental. Por isso, tem uma fachada contemporânea em concreto e, claro, recebeu um tratamento acústico muito cuidadoso. Fica em Charlottenburg, bairro que era o coração da parte ocidental e, hoje, um pouco associada com gente tão rica como tradicional, uma Berlim que pouco tem a ver com a criatividade e agitação atuais da parte oriental. Por isso, não era de se espantar a quantidade de gente elegante e bem-vestida na plateia. Ainda bem que eu caprichei um pouco mais no figurino.

Como não havíamos comprado ingressos, chegamos uma hora mais cedo para tentar o que eles chamam de "Abendkasse", ou bilheteria noturna. Não foi difícil encontrar lugar, mas achei os preços bem salgados. Nosso lugar era bom, mas era o segundo mais barato dentre os oferecidos -- e ainda assim me custou mais de € 50,00. Os ingressos mais caros, lá no gogó do palco, custam mais de € 100,00. Meu amigo tem carteira da universidade e, por isso, pagou apenas € 10,00 (fica a dica para quem ainda é estudante). O coitado ainda se ofereceu para que dividíssemos o valor dos ingressos por igual, mas é claro que eu declinei da oferta -- não é culpa dele se ele segue com os estudos e eu não. Pedi para ele oferecer uma taça de champagne no intervalo.

Como não é um programa que pretenda fazer com frequência, encarei o preço como um investimento na minha cultura. E não me arrependi. O lugar por dentro é de encher os olhos. A montagem também estava muito bem cuidada e a cenografia bem interessante. Não sou versado em música, mas achei a soprano que fazia a Violetta muito boa, o que meu amigo confirmou -- e olha que ela era substituta, já que a cantora principal estava doente. Os outros cantores também estavam bem afinados. A ópera era cantada em italiano mesmo, com legendas projetadas no alto em alemão, como é de costume. Juntando as duas línguas, até que deu para entender bem o texto.

De qualquer forma, o enredo foi baseado no livro "A Dama das Camélias", do escritor Alexandre Dumas Filho, que todo mundo conhece mais ou menos. No Brasil foi "adaptada" pelo José de Alencar em "Lucíola". A história, claro, é carregada de drama e tragédia, e a gente sabe que acaba mal, mas eu sempre choro um pouquinho no final.




No alto: imagem da montagem de "La Traviata" a que eu assisti; embaixo, a Deutsche Oper por fora e por dentro.

Devaneios sobre minha tosse

Isso aqui anda meio abandonado, eu sei, mas depois do começo das aulas no Goethe, tenho que priorizar trabalhos escolares e afins.

Essa segunda-feira foi terrível, talvez tenha exagerado um pouco no final de semana, hoje só consegui ir à aula praticamente. Estou com uma tossezinha chata, que está muito intermitente e não se prolonga muito em cada vez que se manifesta; por isso, (ainda) não me assuta (ando meio hipocondríaco, talvez, mas é que ficar doente aqui sempre é mais complicado).

Acho que a questão é o cigarro. O povo aqui fuma demais, e eu ando convivendo muito com gente que fuma -- colegas do curso, amigos que surgiram etc. Sem contar as baladinhas, bares e boates sempre enfumaçados de nicotina. Nesse final de semana cheguei a me incomodar de verdade pela primeira vez com a quantidade de fumaça de cigarro num lugar e cogitar de ficar sem sair por um tempo. No Brasil, além das leis que restrigiram bastante o fumo em locais fechados, não convivo com muitas pessoas que fumam. Mas se não sou eu quem está fumando de verdade -- só passivamente -- porque a tosse se manifesta justo em mim?