segunda-feira, 29 de junho de 2009

Volta e devaneios

Meus dias aqui na Alemanha estão contados. Dia 09 de julho eu pico a mula. Como não tenho que voltar a trabalhar ainda, vou passar por Istambul e Londres -- bem, esses são os destinos escolhidos até o momento, com passagem comprada e tudo.

Originalmente, como disse a muitos de vocês aí no Brasil, o objetivo era ficar cerca de cinco meses. Só que, como turista, o tempo máximo de permanência é de três meses -- depois disso tenho que esperar mais seis meses para voltar. E, por conta dos acordos da União Europeia, em especial o que criou o Espaço Schengen, isso se aplica a toda essa área, o que dificulta muito as minhas opções de viagem por aqui. A Turquia, embora esteja tentando, ainda não entrou na UE. E a Inglaterra (como a Irlanda), embora sejam parte da UE, não integram o Espaço Schengen, o que permite a minha entrada nesses países mesmo após os três meses aqui (em tese, claro, porque a imigração inglesa é tão chata que eu nem sei se vão me deixar entrar). Outros países que não fazem parte da UE também aderiram a este acordo (como a Noruega e a Suíça) -- portanto, também são destinos excluídos.

É possível que a viagem não se prolongue muito mais, porque viajar cansa, ainda mais depois de tanto tempo fora. Aqui em Berlim eu tinha a minha casa, então tudo bem, mas ficar em albergues e hotéis por muito tempo não dá. Levei em consideração também que vou estar com uma mala gigantesca (na verdade duas, mas a outra é menor), com minha mudança toda. Por isso decidi limitar minha visita a Istambul e não rodar pela Turquia -- fica para a próxima.

Vocês devem ter notado que eu ainda não tenho data para voltar ao Brasil. Pois é, como eu sou muito enrolado, ainda não comprei a passagem de volta, até porque ainda não descartei outras pequenas paradas depois de Londres (Dublin seria uma delas). Mas prometo que aviso a todos vocês assim que souber, para que, quando eu chegar, todos me liguem para eu me sentir amado e querido (hehehehe).

Na verdade, refletindo a respeito, estou numa sensação dúbia quanto à minha volta. Claro que estou um pouco triste, afinal amo de paixão Berlim, é uma cidade com a qual definitivamente eu terei um vínculo para o resto da minha vida. Às vezes acho até que tenho um vínculo de outra vida com esta cidade. Mas, por outro lado, também estou com saudades de tudo e de todos aí.

No fim eu nem me esforcei muito para conseguir ficar mais tempo por aqui. Mandei um e-mail para o órgão de imigração de Berlim, dizendo ter interesse em fazer um curso agora em julho. Eles me responderam que eu deveria ter feito o pedido junto à embaixada no Brasil. Respondi contestando esta informação, já que, de acordo com o site da Embaixada Alemã em Brasília, desde de 1 de janeiro deste ano, os brasileiros também podem fazê-lo diretamente neste órgão de imigração aqui -- colei o link e tudo. Eles nem se deram ao trabalho de responder. E eu, que sou rabungento, acho que se eu estou aqui gastando o meu dinheiro em plena crise, mas eles não fazem muita questão da minha permanência, não sou eu que vou fazer. Claro que sei que há leis de imigração e de permanência no país e que, apesar do sistema capitalista em que vivemos, estar gastando dinheiro no país não é um dos critérios de análise. Porém, são assim que as coisas acabam funcionando na minha cabecinha.

Além disso, no fundo, eu já estou um pouco cansado. Claro que dois meses a mais não fariam muita diferença para mim -- fico surpreso como esses três meses passaram voando -- e eu certamente ficaria mais afiado no alemão, que realmente melhorou bastante desde que eu cheguei. Acho que é a expectativa do deadline chegando: como já está próximo, eu acabo ficando um pouco ansioso com a volta. Sonho com um churrasco feito pelo meu pai e um pão de queijo da minha mãe.

A maior parte dos brasileiros que eu conheci em Berlim já moram aqui há algum tempo, já estão acostumados e não cogitam muito voltar. Sempre digo que sou muito brasileiro e que não conseguiria me adaptar a outra cultura. Na verdade, acho que a gente se acostuma com tudo, bom ou ruim. Se precisasse, claro que eu me adaptaria, de alguma forma. Li alguns textos a respeito em blogs de brasileiros que moram fora. A maioria diz que gosta das novas pátrias e que, no geral, foram recebidos, mas que sempre serão estrangeiros ali. Creio que meu grande problema com morar fora é esse: não gosto muito dessa sensação quase permanente de estrangeiro.

Isso é um pouco complicado de explicar, mas acho que é compreensível para a maioria. Li em algum blog de que agora não me lembro sobre um norueguês que foi para o Brasil e se deslumbrou, achava tudo ótimo e dizia que moraria aí para sempre, se fosse possível. Quase um ano depois, ele quase só falava da Noruega, de como Oslo e os fiordes eram lindos etc. O texto concluía que ele nunca se sentiu tão norueguês como depois de um tempo fora.

É mais ou menos assim que me sinto agora. É fato que eu acho muito feio os brasileiros (e outros estrangeiros, claro) que vêm para cá e só conseguem andar com outros brasileiros, falam português a maior parte do tempo e reclamam de tudo. Ora, se você escolheu viver em outro país, um pouco de adaptação é o mínimo que você pode fazer. Isso não significa que você deixará de ser brasileiro ou abandonar definitivamente a sua cultura de origem. Há também o outro lado da moeda: aqueles que vêm e depois de poucos anos já falam português com um sotaque super carregado e mal devem se lembrar de que Brasília é a capital do Brasil. Isso também é muito feio para mim. De qualquer forma, eu entendo um pouco os dois grupos: o desejo de se integrar de um lado, de deixar de ser um estrangeiro, e aquele de estar em contato permanente com alguma coisa que lembre o Brasil. Feliz de quem consegue equilibrar esses dois impulsos sem muito esforço.

Desde o momento em que cheguei, ficou muito claro para mim que nesse período eu teria que lidar permanentemente com a sensação de ser visto como "o outro". E eu sempre encarei isso como uma experiência de vida ímpar que, no fundo, todos deveríamos ter. Porque em nossas vidas classe média no Brasil, fazemos parte de um círculo em que as coisas seguem uma lógica muito clara, o script é mais ou menos conhecido -- no fim, criamos uma estrutura que faz com que tudo orbite ao nosso redor. Quando aparece alguma coisa (ou alguém) que foge desse script, o olhar é de dentro para fora.

Claro que em um mundo globalizado, o estranhamento se dilui -- ainda mais porque vim para um país da Europa ocidental e não para a Ásia, por exemplo. Mas esse período aqui serviu também para ver que, apesar da globalização, ainda há muitas coisas diferentes por esse mundo, e é bom que assim seja, porque a diversidade é saudável e faz o mundo evoluir.

Enfim, ficar aqui por três meses me ajudou um pouco mais a entender as diferenças, o que foge um pouquinho da nossa vida padrão. Vocês, meus amigos, me conhecem, sabem que nunca fui uma pessoa intolerante e que sempre busquei ter a cabeça aberta. Ainda assim, nada como passar um pouco para o outro lado para entendê-lo melhor. É bom voltar ao conforto do meu círculo, mas espero que a experiência tenha me ajudado a ser ainda mais tolerante e aberto à enorme diversidade do nosso mundo. E me deu a certeza de que, sim, o sangue que corre nas minhas veias é brasileiro.

4 comentários:

  1. Ainda bem que o nosso sangue corre aí na sua veia, pra você voltar rapidinho e comer um tanto de pão de queijo quentinho.
    Bom estar sempre mais aberto e mais tolerante. Gostei do tema. Vou tentar falar disso na Arlete. Um bj com amor e cheiro de pão de queijo! Credo! O pão havia saído como pau. Que ato falho, quase "falíco". Ha ha ha

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  2. ei!
    achei lindo!
    vc é um brasileiro que o país não pode perder jamais!!!!!!!!!!!!
    volta! volta! volta!

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  3. Tiagoo, adorei os seus devaneios sobre ser 'o outro', 'o estrangeiro'. É ótimo partir quando dá na telha e é ótimo voltar quando dá na telha.

    Bjs.,

    R

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  4. Xará, adorei acompanhar a tua reflexão. Fantástico vc ter tido esses insights todos. Sem falar que teu texto é primoroso. Parabéns. E espero que volte pro Brasil, e espero poder conhecer vc melhor. Beijão.

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